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  • Daniel Silva Queiroga

O CONJUNTO DA CASA DA LOBA

A Casa da Loba (nº 579) compõe com outros 3 (três) imóveis um conjunto de edificações que compreendem o primitivo lote 12 do quarteirão 27 da 6ª seção suburbana. Todos esses 4 (quatro) imóveis estão indicados para tombamento pelo CDPCM­BH e pertenciam a finada Rosa Rosso Iannone, sobrinha neta de Felício Rocho, e são objeto de herança. Informações que circulam na Lagoinha que a família reside na cidade do Rio de Janeiro e que o imóvel é administrado por um advogado.

O imóvel situado no nº 595/605 tem projeto datado de 1910. Os elementos decorativos da fachada foram removidos, mas ainda permanece no piso do portão de entrada as iniciais “J” “A”, alusivas ao primeiro proprietário João Abramo.

Contempla 2 (duas) casas geminas, compostas por 2 (dois) dormitórios, sala de visitas, sala de jantar, cozinha e banheiro, uma varanda lateral usada para entrada. Em 1915, Octaviano Lapertosa projetou uma dependência que foram construídas nos fundos que consistia em um depósito de lenha. No mesmo ano foi projetada, pelo mesmo arquiteto, 2 (duas) dependências para moradia de empregados, cada uma com 8 (oito) cômodos.

Como contei no último post, em 1923, a Casa da Loba foi projetada por Otaviano Lapertosa para o João Abramo, em 1923, e ostentava no topo da fachada a mítica Loba que alimentou os gêmeos Romulus e Remus, fundadores de Roma, e, no pórtico da entrada, haviam duas águias, insígnias das legiões da Roma Antiga que conquistaram o mundo, do mesmo modo que os italianos conquistaram a Lagoinha e nela fundaram uma pequena Itália que já não existe mais...

Ela é o vulto de um dos primores da arquitetura neoclássica que Belo Horizonte testemunhou, foi a sede do clube Guarani football club (“alvi-negro-indígena” da Lagoinha) e está rodeada de mitos que dividem a população. Para alguns foi lugar de residência de importantes famílias, para outros serviu de lugar para o comércio do amor.

Em 1977 ela foi descaraterizada pelos proprietários após uma tentava frustada do IEPHA em protegê-la como patrimônio cultural.

Em 1931, o arquiteto Francisco Farinelli projetou para Felício Rocho 2 (duas) casas, que hoje compõem o nº 613 (Antiquário da Gigi) e o nº 625/633.

Ambas possuem 3 (três) dormitórios, sala de visitas, sala de jantar, escritório, cozinha, dispensa, sala de banho e banheiro, a entrada é feita por uma escada no centro das edificações. No mesmo ano, o arquiteto alterou o projeto para incluir um porão com 2 (dois) depósitos. A fachada do nº 613 foi alterada ao logo do tempo, porém não foi encontrado projeto aprovado na Prefeitura. O imóvel do nº 625 está desocupado e em péssimo estado. Há arvores e um muro que impedem avaliar o estado da fachada. A entrada do nº 633 é usada por uma oficina.

As plantas dos imóveis estão na pasta 106.027.012 e 106. guardada no Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte, situado na Rua Itambé nº 227.

Os imóveis descritos somados com a Casa da Loba formam um conjunto de aproximadamente 5.500 metros quadrados que se destaca na paisagem urbana. Ao fundo das construções há um terreno arborizado que pode ser acessado pelo imóvel nº 579 ou pela Rua Sebastião de Melo com a abertura de uma porta.

O conjunto pode ser visto a distância, seja a partir do Complexo da Lagoinha, quanto do alto da Rua Ponte Nova, no alto da Serra da Lagoinha. Desde o Conjunto da Casa da Loba é possível avistar a mencionada Serra, completando os dois lados do vale do antigo córrego da Lagoinha, convivendo em perfeita harmonia urbana, mesmo com a canalização do arroio sob a Avenida Presidente Antônio Carlos.

As edificações implantadas ao lado, retratam a importância que esta região possuía no início do século passado. Com um desenho arquitetônico refinado, esses imóveis eram objeto de admiração pelos que por eles passavam, em especial a Casa da Loba cuja fachada tornou-se bastante característica na paisagem e na memória dos moradores. O Conjunto mostra-se como um símbolo da região, sintetizando a história do próprio bairro, pois o atual mau estado de conservação da edificação, representa o declínio da Lagoinha que, assim como o imóvel, já fora exuberante no passado.

O Conjunto da Casa da Loba foi objeto de atenção da comunidade e dos técnicos da Prefeitura de Belo Horizonte durante os preparativos do projeto de Operação Urbana Consorciada Antônio Carlos/Pedro I - Leste-Oeste (OUC- ACLO). Nesse sentido, o Conselho Municipal de Política Urbana (COMPUR), aprovou, em 4 de maio de 2016, o Parecer de Licenciamento Urbanístico (PLU) nº 189.804/12 que contém as obras prioritárias para a implantação do Corredor Cultural da Lagoinha e do Bonfim. Dentre as quais se destacam como intervenções prioritárias a implantação do Parque Lagoinha no eixo da Rua Sebastião de Melo, junto à Casa da Loba, e, do Centro Cultural Casa da Loba e implantação do Museu do Cotidiano.

Isto se justifica pela necessidade de ser criar espaços para a socialização dos moradores do bairro.

Há 3 (três) praças localizadas na parte norte da região da Lagoinha: Doze de Dezembro, Quinze de Junho e do Bonfim. As duas primeiras são pequenas e estão no alto da montanha, dificultando o acesso de quem mora na porção central que é próxima a Casa da Loba. A Praça do Bonfim é usada como estacionamento e sua distância da parte central da região é uma barreira para o uso dos moradores. Há, ainda, a Praça do Peixe e a Vaz de Melo (ou do Centenário), ambas localizadas na parte sul da região e lindeiras ao Complexo Viário da Lagoinha. Como nelas não há uma barreira arquitetônica que as isole como ponto de convivência são subutilizadas e o grande fluxo de veículos e sua alta velocidade constituem elementos que reforçam a falta de espaços seguros de socialização.

Outra justificativa é a histórica subutilização dos imóveis e das suas áreas verdes, assim como seu precários estado de conservação. Apenas o nº 613 apresenta alguma conservação, enquanto o nº 595, o nº 605 e o nº 625 estão desocupados. Os imóveis não cumprem sua função social nem a vocação cultural que lhes é particular, tendo em vista o contexto histórico, a memória e o Conjunto Urbano Lagoinha, Bonfim e Carlos Prates.

Por outro lado, sabe-se do histórico dos herdeiros de Felício Rocho que não possuem vínculo afetivo com a região da Lagoinha, tendo, inclusive promovido o destombamento da Casa da Loba em 1976 e sua descaracterização em 1977. É notória a promoção de especulação imobiliária realizada pelos herdeiros que, segundo relatos, recusaram inúmeras propostas para venda dos imóveis.

O tombamento de todo o conjunto e sua posterior desapropriação podem permitir ao poder público em conjunto com a iniciativa privada, por meio do Projeto Horizontes Criativo, a recuperação arquitetônica e a conservação das edificações, enaltecendo a memória que elas guardam. Considerando esses fato, o tombamento isolado da Casa da Loba pode ser um risco para a permanência dos outros 3 (três) imóveis.

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